Uma das principais premissas da arquitectura assenta na sua tradicional estabilidade, resultado da materialidade necessária para a sua construção. No entanto, a transversalidade presente na sociedade contemporânea obriga a constantes reformulações, empurrando os arquitectos para novas áreas de intervenção comuns a várias disciplinas do saber. É o caso de Balthazar Aroso Arquitectos, um atelier que entende que "a prática da arquitectura não é um universo estanque, mas sim um sistema aberto às mais variadas influências" consolidando trocas constantes e reinterpretando fronteiras entre diferentes disciplinas. www.balthazar-aroso.com

Biblioteca Ideal para o Século 21 em Cork
Quem é Balthazar Aroso?
Somos um ateliê sedeado no Porto, que tem como premissa principal o desenvolvimento de projectos no âmbito de formulações e reflexões experimentais. Consideramos que a estabilidade tradicional associada à materialidade tem vindo a ser posta em causa pela convergência entre Arquitectura e outras disciplinas. Com estudos em diversas áreas pretendemos abrir novos caminhos para a exploração tangível da virtualidade que, no futuro, nos possibilitem formular novas estratégias para lidar, criativamente e cientificamente, com a indeterminação que caracteriza as dinâmicas complexas do mundo contemporâneo.
Os teus projectos mostram claramente influências de outras disciplinas tanto artísticas como cientificas. Quais as dificuldades de projectar assim em Portugal?
Conceptualmente as dificuldades são as mesmas em projectar, quer em Portugal, quer noutro país. Se nos assumimos como criadores por natureza e insatisfeitos por vocação, a condição é a mesma, independentemente do lugar em que nos encontramos. No entanto, na prática, a única dificuldade com que nos deparamos quando estamos a projectar para Portugal é, essencialmente, o factor cultural.
Falas de factor cultural como uma grande dificuldade. É isso que impede a inovação na arquitectura nacional?
Falo do factor cultural como elemento que define um país. A inovação implica necessariamente um novo ponto de vista, que por si só, implica algo de diferente, e em Portugal, têm-se medo de ser diferente. Existe uma constante procura da estabilidade colectiva uma voz comum. Este medo da diferença está profundamente enraizado na cultura nacional. Portugal como diz José Gil, tem "Medo de Existir".
Diagramas de fluxos, Organização não-sequencial, etc. são termos habituais de uma nova leitura da profissão. No entanto a nossa geração ainda foi educada segundo os modos clássicos de fazer arquitectura. Achas que este confronto entre o "bem" e o "mal" são positivos para o processo de projecto?
Sem dúvida. A partir do momento em que abordamos o projecto, sem qualquer tipo de preconceitos, estas duas atitudes são confrontadas e, deste confronto, nasce uma terceira, a proposta, que no nosso entender é a melhor solução para o problema. Não achamos que exista uma só maneira de fazer arquitectura, mas sim várias. A curva não é melhor do que a recta. Tudo depende da estratégia.
Multidisciplinaridade vs Auto-referencial. Achas que estamos perante uma mudança de paradigmas arquitectónicos?
A mudança é constante e inevitável, a prática da arquitectura não é um universo estanque, mas sim um sistema aberto às mais variadas influências, das mais diversas áreas. Podemos ir buscar influências a outras disciplinas e reequacionar todas as premissas que estas nos apresentam; ir a outros campos do conhecimento e tentar compreender os métodos, raciocínios, conceitos, teorias e reinterpretá-los à luz da nossa disciplina, possibilitando, assim, novos pontos de vista sobre determinados temas. Entendemos que as fronteiras entre as ciências naturais, as ciências humanas, as humanidades e as artes estão cada vez mais esbatidas e, assim, os limites da arquitectura podem expandir-se para novos domínios, possibilitando acesso a novas áreas de investigação da prática arquitectónica. É neste sentido que falamos de uma multidisciplinaridade na prática de arquitectura e que não acreditamos numa disciplina auto-referencial.
publicado às 15.25 em 25.11.2006