I+D é um conceito normalmente afastado da prática arquitectónica corrente, onde a necessidade de resposta imediata a condicionantes técnicas e programáticas se sobrepõe à vontade de experimentação criativa. Soluções banais dividem o espaço das cidades modernas com as poucas infiltrações inovadoras que conseguem atingir o status de obra construida. E contra esta corrente que encontramos em Copenhaga os BIG -Bjarke Ingels Group- um grupo com cerca de 50 arquitectos, designers, construtores e pensadores que operam nos campos da arquitectura, urbanismo, investigação e desenvolvimento, propondo soluções simultaneamente pragmáticas e utópicas. www.big.dk

REN People's Building Shanghai [BIG em colaboração com JDS]
O vosso atelier começou acidentalmente na Dinamarca. Como vês isso hoje em dia, olhando para trás?
Quando voltei da Holanda (onde trabalhei com os OMA no projecto para a Biblioteca de Seattle) não estava á espera de muita coisa da arquitectura na Dinamarca. Na altura, a Dinamarca era mais conhecida pelo ambiente de Cinema Independente do movimento dogma e de Lars Von Triers. No entanto onde nada existe tudo é possível! Parecia que todo o mundo estava louco para que acontecesse algo novo, e de certo modo, conseguimos que isso fosse possível. Nos últimos cinco anos Copenhaga transformou-se num laboratório de novas formas urbanas. Numa série de projectos testamos os efeitos de escala e o equilíbrio entre as misturas programáticas nos tecidos sociais, económicos e ecológicos. Como nos velhos alquimistas, criamos arquitectura pela mistura de ingredientes convencionais como habitar, ócio, trabalho, estacionamento e comércio. Cada local é testado numa experiência própria de pragmatismo utópico. No final, acho que escolhi a Dinamarca (na realidade, nasci e cresci em Copenhaga, portanto penso que de certo modo a Dinamarca me escolheu primeiro!) pelas suas qualidades de cinema, mas acabamos por ter êxito devido á falta de qualidade na arquitectura.
A "pragmatopia" dos vossos projectos parece ter uma forte influência holandesa. A mistura entre escala, programa, criticismo, etc. dá aos projectos uma nova personalidade. Como conseguem fazer essa gestão?
Historicamente a arquitectura na Dinamarca (e na maior parte do mundo) foi dominada por dois opostos extremos. Por um lado um Avant-Garde cheio de ideias extremas. Historicamente, o campo da arquitectura foi dominado por duas visões opostas. Por um lado uma postura Avant-Garde de ideias loucas. Originárias da filosofia, misticismo ou fascinação do potencial formal das visualizações digitais tornam-se frequentemente afastadas da realidade que acabam por tornar-se apenas curiosidades excêntricas. Por outro lado, estão os bem organizados grupos corporativos que constroem -previsíveis e aborrecidas- caixas. Arquitectura parece estar barricada entre estas duas frentes igualmente inférteis: utopicamente naives ou pragmaticamente petrificantes. Acreditamos que á uma terceira via, cunhada na terra de ninguém entre estas visões opostas. Ou na pequena mas fértil sobreposição entre as duas. Uma arquitectura pragmaticamente utópica que têm como objectivo prático a criação de lugares perfeitos, quer socialmente, economicamente e ambientalmente. Ao procurar atingir esta fértil sobreposição, os arquitectos encontram a liberdade de mudar a superfície do nosso planeta de modo a melhor adaptar o modo como queremos viver. Escolhendo entre eles estamos condenados a um martírio frustrado ou uma afirmação apática. Nos BIG procuramos investir na sobreposição entre radical e real, não em termos de soluções universais para problemas genéricos, mas como a criação de intervenções especificas em áreas operativas restritas. Na realidade pragmatismo e utopia não são opostos, mas o primeiro é um pré-requisito para conseguir atingir o último.
Na Bienal de Veneza apresentaram o projecto "Too Perfect - Rebranding Denmark". Um estudo estratégico sobre o futuro da Dinamarca. É possível ter uma "Factura Energética Zero" ou ser o "Porto da Nova Europa"?
O Porto da Nova Europa está cada vez mais perto de se tornar realidade pois a Dinamarca e a Alemanha decidiram avançar com a construção de uma ponte. Devido á sua escala, isto implica a colaboração de 12 municípios e dois governos nacionais, além de várias companhias multinacionais. Este projecto acabou por tornar-se um grande desafio. Quanto à Factura Energética Zero, estive os dois últimos anos a fazer Lobby de modo a conseguir que um grupo de clientes se junta-se ao nosso projecto chamado "Little DK" onde procuramos criar um duplo eco-sistema -económico e ecológico- ao desenhar sinergias entre grupos de usos complementares. Estamos agora a entrar na fase final de desenvolvimento onde parece ser possível realizar-se cerca de 100.000m2 de projecto como Tubo de Ensaio. Passamos de uma especulação utópica a uma realização pragmática em menos de três anos.
A apresentação do projecto "The Battery", um complexo que inclui a primeira mesquita a ser construída na Dinamarca" foi bastante oportuna. Foi uma decisão política ou apenas uma coincidência?
Acho que devíamos dizer uma trágica coincidência. Já estávamos a trabalhar no projecto fazia algum tempo quando os cartoons de Jyllandsposten desencadearam todos os motins no mundo islâmico. Cerca de duas semanas antes da apresentação prevista, o Médio Oriente explodiu repentinamente e a Dinamarca viu-se no centro de um conflito cultural e religioso global. A dada altura parecia que tínhamos feito um projecto que podia salvar o mundo -ou pelo menos a reputação da Dinamarca como uma nação liberal e culturalmente tolerante. De qualquer modo, tornou o projecto extremamente relevante e necessário para Copenhaga, e conseguimos apresentar o primeiro projecto dos BIG na CNN.
publicado às 15.31 em 25.11.2006