A complexidade do mundo contemporâneo não consegue ser entendida nem apropriada com um olhar especifico de qualquer profissão. No entanto, a especificidade da arquitectura como criadora de palcos de acontecimentos e a capacidade de gestão dos mais variados conhecimentos a tornam num dos campos onde é possivel investigar esta escala global. Fernado Romero é um dos autores mais influentes desta atitude mais investigativa da profissão, procurando cruzar continuamente experiências entre os mais variados campos de conhecimento em busca de resultados mais transversais e abragentes. www.laboratoryofarchitecture.com

Villa S
No teu livro Translation, falas que o teu projecto de graduação se inspirou na obra de Fernando Pessoa. Que mais te interessou nas sua obra?
Fernando Pessoa foi um esquizofrénico um pouco estranho. Me interessou a sua personalidade capaz de se transformar em personagens às que vai dando vida no seu oficio literário. A fragmentação na sua obra pareceu-me ter qualidades que se poderiam investigar em arquitectura. Um dia descubri que Pessoa quis ir viver em Cascais, e que se descobriu depois da sua morte que tinha concorrido a uma vaga que apareceu na biblioteca Municipal. Incrivelmente não foi aceite. O meu projecto de graduação consistiu em desenhar uma casa para Pessoa partindo do principio que chegaria a Cascais para viver o fim da sua vida. A casa estava composta por quantro espaços como tradução metafórica da sua estrutura literária.
No teu estudio produzem diversos tipos de trabalho. Projecto, Investigação, Publicações, etc. Como vês essa multiplicidade de aproximações à arquitectura?
Talvez como resultado das várias velocidades locais. Nos interessa a investigação tanto como o projecto. Acreditamos que ela nos pode aproximar a um melhor entendimento do que a arquitectura deve traduzir. Agora estamos na etapa final de um livro sobre a fronteira entre México e EUA, considerada a mais activa do planeta com cerca de 300 000 000 passagens registadas anualmente. A nossa própria situação está definida em grande parte pelas distâncias e proximidades. Na vida diária do estudio estas duas áreas são completamente independentes, funcionando de maneira distinta. Uma persegue a informação que será traduzida em conteúdos, e por outro lado a parte de projecto traduz programas que serão interpretados en estruturas.
A tua investigação sobre a cidade do México condensou informação analitica sobre esta mega metropole. O retrato conseguido é um exemplo do futuro dos aglomerados urbanos ou temos alternativas?
A Cidade do México é o melhor exemplo de que o planeamento nos paises em vias de desenvolvimento se limita a simples correções ao sistema. A Cidade do México é um dos laboratórios urbanos mais complexos do planeta. 19 000 000 vivem aqui, e mais de metade delas sob uma economia informal -sem contribuição fiscal- e com os índices de violência mais altos da América Latina. A qualidade do ar é a pior de qualquer cidade da terra, mas com uma incalculável riqueza cultural e social…nos interessa estar aqui…mas não paenas aqui. Começamos agora a operar também desde Los Angeles, uma cidade com uma crescente presença latina e uma definição bastante clara de cidade globalizada.
No HIPERBORDER trabalhas sobre um tema quente: a imigração ilegal resultante das diferenças entre oportunidades de vida. Como arquitecto, que procuras com estes temas tão transversais?
A fronteira entre México e Estados Unidos está a tornar-se uma fronteira de extremos, onde duas condições de grandes diferenças estão interconectadas. Uma situação semelhante existe entre África e Europa. As oportunidades de trabalho poderiam estar vinculadas com as carências. A infraestrutura é claramente uma das grandes tramas da região. Conectividade, Serviços, Industria, Comércio. A nossa investigação têm essencialemtne que ver com o conhecimento da região, agrupando, selecionando e traduzindo a informação mais relevante nos aspectos de fluxos entre os dois paises, mostrando alguns cenários de possiveis futuros. Futuros estes que têm que ver com todos nós em todos os niveis.
Trabalhaste na Europa. Espanha, França, Holanda. Que importância tiveram estas experiências em ambientes culturais tão distintos no teu processo de trabalho?
Serviu para reconhecer o que nos distingue. Para reconhecer diferenças e respirar o mundo globalizado. Talvez também para poder vislumbrar com maior nitidez sobre as possibilidades de exerçer a prática profisisonal desde uma perspectiva mais global. México é um paraiso pela sua juventude, pela sua democracia numa fase ainda infantil, combinada com um desprezo pelo projecto. E uma desgastada percepção dos processos arquitectónicos vêm de uma crise de flata de clareza, onde a pós-modernidade encontrou muitos adeptos. O desafio continua o mesmo dos anos cinquenta…combinar o global com o local no atrevimento de uma tradução da actualidade.
publicado às 13.23 em 25.11.2006