Portugal exerceu nos últimos vinte anos um estranho fascinio para os arquitectos de todo o mundo. O peso de uma arquitectura com forte identidade serviu de cartão de visita e atraindo bastantes estudantes e profissionais estrangeiros que se radicaram neste cantinho da Europa. É assim que surge nbAA, atelier do arquitecto italiano Nadir Bonaccorso. Um espaço onde a investigação sobre temas de sustentabilidade e a inovação arquitectónica fazem parte da rotina do atelier, modelando e consolidando "uma visão, um sonho que tem vindo a crescer, alimentado, ao longo de 9 anos, através da partilha de entusiasmos, experiências e trabalho". www.nbaa.pt

jip_ jardim de infância popular, cacém (nadir bonaccorso + sónia silva)
O vosso trabalho foca constantemente o tema da sustentabilidade e energias renováveis. Qual a importância deste tipo de temas para a Arquitectura contemporânea, e principalmente para o vosso trabalho?
O que pergunto é se haverá outro caminho...Acredito que a profissão do arquitecto encarada apenas como “artista do espaço e da luz” numa evolução desejável da nossa sociedade está destinada a desaparecer. Percorrendo 5000 anos de história da humanidade poder-se-ía dizer que a arquitectura e a construção até à revolução industrial foi sempre sustentável, era uma necessidade, não existindo outra forma de resolver o problema do conforto senão através da “arte de construir”. A grande aceleração no desenvolvimento nos últimos séculos trouxe além de tudo energia, para a iluminação e para o conforto térmico na construção. Afastamo-nos assim, num processo normal de crescimento, da arte de construir esquecendo a experiência acumulada, entregando a responsabilidade do nosso conforto aos meios artificiais. A partir das primeiras crises energéticas começamos a ter consciência que a energia que utilizamos nem sempre tem efeitos neutros no meio ambiente e alguma destas energias em curto ou medio prazo esgotar-se-á. Alargando este raciocínio às desigualdades sociais, barreiras físicas ou sociológicas, à necessidade de racionalização de recursos (desde a água ao dinheiro), não me parece, hoje em dia possível, vivermos e trabalharmos divorciados desta realidade.
Assim, a construção de um “habitat humano”, sustentável, é uma responsabilidade que escolhemos assumir em todo o nosso trabalho. Reconheço que esta não é, infelizmente e ainda, uma questão totalmente pertinente e partilhada por todos, em particular pelos que decidem. Mas há sinais que nos permitem pensar que algo está a mudar.
Nesta Europa da mobilidade profissional, quais as vantagens e dificuldades que encontram em ser arquitectos num pais estrangeiro?
As experiências acumuladas de mobilidade tendem a relativizar os problemas e a dar valor à diversidade. Neste aspecto o tema da globalização não pode ser entendido como um factor negativo mas como um catalizador de partilhas rumo a uma sociedade de conhecimento e de intervenção activa e responsável. No âmbito da arquitectura, ressalvando os aspectos de acesso condicionado por razões de língua, nacionalidade ou até de contactos sociais, creio que o nível de dificuldade não é substancialmente diferente entre locais e estrangeiros. Por mais absurdo que possa parecer, acredito que a arquitectura progride com o crescimento proporcionado pelo caminho individual percorrido. A mobilidade é uma fonte de riqueza.
A organização da Exposição Arquitectos Italianos em Portugal veio confirmar que somos um destino preferencial para viverem e trabalharem. Quais as diferenças entre a situação actual dos Jovens Arquitectos entre Itália e Portugal?
Recentemente, organizámos, junto com a OA-SRS, uma exposição de jovens arquitectos portugueses premiados intitulada “êxito e ilusão” que complementava uma exposição italiana itinerante também de jovens arquitectos, onde no debate de encerramento o Arquitecto Luigi Centola, reconhecido internacionalmente pelo seu trabalho em prol da arquitectura sustentável (Holchim Awards for sustainable architecture, medalha de prata), nos ilustrava a realidade italiana, em tudo semelhante à nossa própria realidade. Não sei hoje se Portugal é um destino mais ou menos atraente, o que sei é que a arquitectura como percurso de vida, requer um lugar, uma base, um porto de reflexão seguro, como a mim me foi transmitido, num determinado momento, por alguém próximo. No entanto, partilho que a dedicação de muitos arquitectos portugueses têm projectado internacionalmente uma noção de micro-clima muto cativante que eventualmente atrai ou atraiu muitos jovens de diferentes origens.
publicado às 12.46 em 15.02.2007